Entendendo as neuroses
A - Reacção Neurótica Aguda
Fosse permitido construir uma analogia didáctica para compreender a Reacção Neurótica Aguda e diferenciá-la da Personalidade Neurótica citaria, por exemplo, o caso da alergia. Há indivíduos que, em contacto com um determinado alergeno reagem alergicamente espirrando, com coriza e lacrimejando. Depois de algum tempo distante do alergeno, tudo volta ao normal. Isto é o que acontece com quase todas as pessoas mas, por outro lado, há indivíduos que vivem cronicamente com alergia e de maneira inespecífica. Estão sempre com coriza, espirrando ou lacrimejando, nas mais variadas situações e diante dos mais insuspeitados alergenos. No primeiro caso temos um exemplo da Reacção Aguda e no segundo de uma configuração da Personalidade.
No primeiro caso da analogia descrita acima, podemos dizer que o indivíduo teve uma alergia e, no segundo, que ele é alérgico. Pois bem. Tendo em vista a conceituação tradicional de Neurose, a qual fala em doenças da personalidade como um estado permanente e duradouro, será fácil deduzir que apenas a Personalidade Neurótica representa, realmente, aquilo que queremos dizer como Neurose. Já a denominação de Reacção Neurótica Aguda poderia ser entendida como, digamos, um tropeço emocional na vida do indivíduo.
Na REACÇÃO AGUDA A STRESS os sintomas emocionais aparecem dentro de minutos ou horas após a vivência causadora e desaparecem, também, em questão de alguns dias ou mesmo horas. Há como uma espécie de atordoamento, diminuição da atenção, incapacidade para integrar todos os estímulos e até um estado de desorientação. Para que se caracterize uma Reacção Aguda ao stress, é indispensável haver uma conexão temporal entre os sintomas emocionais e o impacto do stressor psicossocial. Nesta espécie de choque psíquico pode haver, concomitante ao atordoamento e desorientação, um quadro de depressão, angústia, ansiedade, raiva e desespero.
Quanto ao TRANSTORNO DE STRESS PÓS-TRAUMÁTICO, a resposta é mais tardia ou protraída a um evento ou situação estressante. Poderá ser de longa ou curta duração. Há, aqui, um certo embotamento emocional, afastamento social, sonhos frequentes com a situação causadora, diminuição do interesse para com o ambiente, diminuição do prazer ou sua abolição total (anedonia) e evitação de situações recordativas do trauma. Com frequência há também uma hiperexcitação, hipervigilância e insónia, ansiedade e depressão. Como complicação podemos encontrar, nestes casos, um abuso excessivo de bebidas alcoólicas. Para o diagnóstico do Transtorno de Estresse pós-Traumático há necessidade de que o quadro tenha surgido até 6 meses após um evento traumático de excepcional gravidade. O curso deste transtorno é flutuante, porém, seu prognóstico costuma ser favorável para a grande maioria dos casos.
O TRANSTORNO DE AJUSTAMENTO é cogitado quando existe uma angústia ou perturbação emocional interferindo com o funcionamento e desempenho sociais, a qual tenha surgido como consequência aos esforços adaptativos a uma mudança significativa na vida da pessoa. A característica essencial de um Transtorno de Ajustamento é o desenvolvimento de um quadro psico-emocional significativo em resposta a um ou mais stressores psicossociais identificáveis. No Transtorno de Ajustamento os sintomas desenvolvem-se, normalmente, dentro de um período de 3 meses após o início do estressor ou estressores. A Reação Vivencial no Transtorno de Ajustamento é caracterizada por um acentuado sofrimento, o qual excede o que seria estatisticamente esperado pela natureza do stressor e resulta em prejuízo significativo no funcionamento social ou profissional. Os sintomas principais são: humor deprimido, ansiedade, preocupação, sentimentos de incapacidade em adaptar-se, sensação de perspectivas sombrias do futuro, dificuldade no desempenho da rotina diária. Em crianças podemos observar comportamentos regressivos. Os sintomas podem persistir por um período de até mais de 6 meses, principalmente se são em resposta a um stressor crónico. A resposta no Transtorno de Ajustamento é mal adaptativa porque existe um prejuízo no funcionamento social e ocupacional, ou porque os sintomas e comportamentos excedem a resposta normal esperada para tal stressor. São tão comuns estes Transtornos de Adaptação que Kaplan refere uma incidência de 5% em todas admissões hospitalares estudadas num período de três anos. A organização da Personalidade e os valores culturais do grupo contribuem para estas respostas desproporcionais, assim como também podem advir de uma somatória de pequenos stressores menos importantes.
De 0 a 20: Parte 2.